“Chá das 11”

São onze da manhã e, depois de onze minutos no trânsito, acabo de chegar ao “Eleven”. Ok, já perceberam a ideia. O calor da manhã, ainda não muito forte, convida a uma boa bebida enquanto se aprecia a paisagem que, em Lisboa, só este restaurante tem. A diferença é que, no meu caso, a paisagem é outra. É distinto, é grande, é preto. Estou, obviamente, a olhar para um empresário angolano. Na! Estou a gozar. É um Bentley Continental GT Convertible absolutamente fantástico. Que presença! Sabem quando vão a uma festa ou algo social parecido e há alguém que capta a atenção de toda a gente, sem ser essa a sua intenção e sem o mínimo de esforço? Muito bem. Isso é um Bentley. E é curioso eu dizer isto sobre um Bentley. Essencialmente porque não gosto de carros pesados e potentes. Acho um desperdício!

No entanto, este é, exactamente, o propósito de um Bentley. Quem compra um carro assim quer um tipo de luxo que nenhum outro proporciona. São pessoas que não precisam de se afirmar mas que, de vez em quando, gostam de dar “ratada” aos miúdos que acham que ter um carro potente é o que importa no mundo do automobilismo. A todos esses, eu digo: se não tens um W12 de 6 litros bi-turbo debaixo do capot, mais vale levantares o pé do acelerador porque, seguramente, o dinheiro da gasolina faz-te falta.

Convém explicar-vos um pouco a minha ideia acerca deste Bentley. Vamos por as coisas nestes termos. Ok, este Bentley é um superdesportivo. Bem, pelo menos no papel. É um carro, tem quatro rodas de tantas polegadas quanto o dinheiro que a maioria dos portugueses tem na conta, velocidades automáticas, 590 cavalos de potência e binário suficiente para poder atrelar uma alfaia agrícola e lavrar um campo de batatas num instante. Mas isto tudo só é suficiente se quisermos ir em frente. Se quisermos curvar rápido precisamos de um carro leve e ágil. Aqui, fica difícil. Não só o carro é ligeiramente alto, o que levanta o centro de gravidade, como é extremamente pesado. São 2495 quilos! Podemos juntar dois Fiat 500 e não chegamos ao peso do Bentley.

Mas, por outro lado, dois Fiat 500 não conseguem, sequer, empurrá-lo. Para percebermos melhor, vamos fazer uma analogia escolar. O Ferrari é o perfeitinho. Aquele que as miúdas mais querem. É lindo, excelente atleta e muito bom aluno. O Lamborghini é exactamente igual mas em maluco, o que faz rir a turma toda e que, por isso, está sempre a ir para a rua (talvez, por isto, me identifique tanto com a Lamborghini e a adore). O Porsche é aquele miúdo que fica sempre em segundo mas, ainda assim, todos gostam dele.  O Maseratti esforça-se muito mas quando não consegue, diz que não tinha intenções de ser o melhor. O Pagani é o rebelde. É muito bom mas está sempre a fazer gazeta para fumar atrás do pavilhão. O Jaguar é aquele que ninguém dá por ele mas namora há cinco anos com a mesma miúda gira e que é, na generalidade, bom a tudo. É o bom amigo. O Fiat anda sempre com o Corvette e o Corvette… bem, o Corvette nunca foi á escola.

“Então e o Bentley?” perguntam, vocês! Bom, o Bentley é o filhinho do papá, meio gordinho, sempre bem vestido, mau a desporto, com quatro explicadores e que, por tudo isto, aparece sempre na pauta com bons resultados. É aquele que não é grande coisa mas que vai aparecer sempre devido ao nome que tem. Provavelmente vai dar trabalho ao Fiat e ao Corvette. De vez em quando lá se irrita e corre mais que os outros. Especialmente se tiver a caminho do bar da escola e faltar só um donut. Sim, porque este carro é guloso. Marcava 49 litros (!) a cada 100 quilómetros percorridos. Mas não faz mal porque, mais uma vez, quem comprar este carro, claramente não percebe o conceito de motor a explosão e de fóssil só conhece os ossos nos museus em Nova York.

Aqui, na varanda do Eleven, o Bentley é o único carro que faz sentido. Uma das melhores vistas de Lisboa num dos melhores restaurantes da capital. A única coisa melhor que os bombons exclusivos para acabar a refeição deliciosa que este restaurante nos proporciona é saber que vamos para casa a conduzir esta moradia sobre rodas com os cabelos ao vento. Uma moradia que atinge os 100 quilómetros por hora em 4,7 segundos. Imaginem a vossa casa. Agora imaginem-na a 300km/h na A1. Maravilhoso!

Como não podia deixar de ser, tudo o que é bom tens os seus contras. No caso no Eleven é sabermos que quando sairmos de lá vamos voltar a comer bife rijo e muito passado. Isto se um qualquer supermercado tiver com descontos, senão comemos bifana e já é bom. Já o Bentley, o único problema que tem é que quando saímos dele voltamos a dar uso aos sapatos e, pelo menos eu, confesso, não tenho um W12 nos pés. Que bem me soube este chá das onze!

Rafael Aragão Rodrigues

Agradecimentos à Konzept pelo acesso a este modelo Bentley