Literatura dos Famosos – “Quando a neve cai”

quandocaianevePara esta semana recomendo um livro de características muito peculiares, desde logo devido à conjugação do trabalho, em simultâneo, de três grandes nomes da literatura norte-americana, todos eles frequentadores habituais do pódio do New York Times: “Quando a Neve Cai”, de John Green, Lauren Myracle e Maureen Johnson.

O contexto é o de uma vasta povoação isolada pela maior tempestade de neve do século, em que a humanidade dos intervenientes é levada ao limite do sacrifício e da exaustão, numa obra que explora não apenas a natureza física dos seres humanos, mas sobretudo os contornos éticos da personalidade, devidamente matizados para homens e mulheres.

Apesar do indiscutível mérito dos três autores, o potencial de imaginação de John Green – conhecido pela criação de videojogos de alcance mundial – revela-se por vezes de forma incontornável ao longo da obra, sobretudo quando as condições de isolamento e degradação a que são sujeitos os oito rapazes e raparigas dão origem a viagens mentais maravilhosamente descritas. De facto, se “Quando a Neve Cai” tem alguma particularidade distintiva será a de uma meticulosa e soberba descrição dos circuitos mentais que nos tomam de assalto quando o contexto em nosso redor se destrói e desmaterializa. O sonho e o sofrimento. A dor e o amor impossível. A esperança e a paixão corrosiva. Todos estes tópicos entrelaçados de forma tão intensa quanto a neve nas infra-estruturas desta cidade isolada.

Ao ler este texto, poderia o leitor deduzir que estamos perante uma obra crua e meticulosa ao estilo dos melhores autores russos da primeira metade do século XX. Nada disso: esta é uma história que, pela ternura das expressões e pelas palavras de cada um dos personagens, aquecerá o coração de qualquer um. Cruzando por vezes – demasiadas vezes, em meu entender – a linha do que poderia ser considerado piegas, “Quando a Neve Cai” consegue, no entanto, transportar o leitor para um universo de amor e romantismo semelhante àquele que encontraríamos em Gabriel Garcia Marquez.

Por fim, deve ser enfaticamente sublinhado que a combinação de Green, Myracle e Johnson teve como resultado uma obra surpreendentemente divertida, quase humorística. Na verdade, apesar de encurralados por quilómetros insuperáveis de espessos flocos de neve, os heróis da acção envolvem-se numa linha de acção pautada, muitas vezes, por uma combinação de momentos mágicos e divertidos que, dada a repetição sistemática, parecem muitas vezes assemelhar-se ao realismo mágico de Salman Rushdie.

Sem dúvida, um livro para ler à lareira nas mágicas e profundas noites de inverno que se aproximam.

André Ventura

André Ventura

Escritor

Professor Universitário