Literatura dos Famosos – “Casanova”

casanovaPara esta semana, recomendo uma obra própria de um mês simultaneamente romântico e melancólico como Setembro: “Casanova” de Ian Kelly. Uma obra-prima da biografia contemporânea.

Ian Kelly consegue, ao longo de quase quinhentas páginas, apresentar um estudo sério e sem preconceitos de um dos personagens culturais mais importantes do período europeu pré revolucionário, desmistificando incondicionalmente a ideia generalizada de Casanova como uma figura excêntrica e aberrante, objecto de estudo interessante apenas para o estudo da sexualidade europeia ou do voyeurismo moderno.

“Casanova” apresenta-nos um homem que, acima de tudo, poderia ser definido como um alpinista social: filho de uma actriz de comédia veneziana, é espantoso e admirável o esforço hérculeo de um homem que queria prepassar as fronteiras da classe ou do epíteto social e que, para o conseguir, estava disposto a [quase] tudo, enfrentando para isso os mais desconcertantes preconceitos do século XVIII, quer em matéria social quer mesmo no âmbito da vivência sexual, universo dentro do qual Casanova viria a ser mundialmente conhecido a partir dos século XIX.
Mas esta é, segundo Ian Kelly, apenas uma das múltiplas prespectivas de um homem complexo e fascinante. Casanova tornou-se um dos maiores viajantes da sua geração, inaugurando verdadeiramente o estilo de literatura de viagens que se viria a vulgarizar já no século XX, privando com as grandes casas da aristocracia europeia, com grandes empresários turcos e, claro, com o mundo secreto das cortesãs-prostitutas de Londres, Paris e Amesterdão.

Ian Kelly impressiona verdadeiramente quando nos apresenta um Casanova capaz de tudo para iniciar novas aventuras sexuais (como quando promete ajuda a uma mulher que precisa desesperadamente de abortar, envolvendo-a em múltiplos esquemas, e acabando a tentar seduzi-la nesse mesma noite, num amplo sofá especificamente preparado para o efeito) mas que não se esgota nesse universo. O autor traça-nos o perfil de um homem multifacetado, com interesses comprovados nas áreas da geometria, da astrologia e da medicina alternativa, que chegou a convencer uma das mulheres mais ricas de França, com 63 anos, de que conseguia transportar a sua alma para um recém-nascido se ele próprio a fecundasse.
E, ao mesmo tempo, um Casanova de eminentes relações políticas, que terá trabalhado a soldo para a espionagem francesa, holandesa e talvez até portuguesa. Um homem cuja capacidade de se introduzir nos salões da realeza e da aristocracia europeias, apesar das suas origens humildes, continua a intrigar os estudiosos e a contribuir para a idealização deste homem que falava de igual para igual (pelo menos na sua cabeça) com Voltaire e Rosseau.

Tudo isto torna a obra de Ian Kelly imprescindível para compreender o romântico e o egocêntrico mundialmente conhecido. O burlão e o alpinista social. O homem que fez e gastou fortunas inteiras, impressionantes para os cânones da época. Mas, sobretudo, este “Casanova “ de Ian Kelly apresenta-nos um apaixonante e truculento relato de uma vida vivida no limite da nossa condição de seres humanos.

André Ventura

André Ventura

Escritor

Professor Universitário