Literatura dos Famosos – “O olho de Deus”

olhodedeusPara esta semana, recomendo uma obra enigmática e controversa:  de James Rollins. Há muito que não se via uma tão poderosa união entre a história, a simbologia e a física mais avançada, num presságio apaixonante do futuro próximo da humanidade.

Nesta obra de James Rollins os factos nem sequer são o mais importante e, pode dizer-se, são até um lugar relativamente vulgar no contexto do romance policial norte-americano do século XXI: um satélite de investigação que se despenha com material relevante, segredos que só o Vaticano pode revelar, equipas conjuntas de historiadores, religiosos e físicos que revelam, no fundo, essa unidade desejada entre a mão de Deus e a mão da ciência. Nada que Dan Brown não tenha já explorado até à exaustão.

É a nova “física negra”, uma espécie de magia científica, que marca este “O olho de Deus”. As catástrofes humanas descritas de uma forma brutalmente realista são o verdadeiro pano de fundo desta narrativa: toda a história humana caminha para um futuro de catástrofes naturais e inevitáveis cada vez mais destruidoras e mortais, a menos que…E é esse elemento que vamos descobrindo, apaixonadamente, presos às linhas de Rollins, até à última palavra. É que o autor não consegue apenas prender pela plasticidade da linguagem, mas sobretudo pelo realismo semântico que imprime à sua escrita, notável quando descreve a destruição da Costa Leste dos Estados Unidos da América, num alusão a vários fenómenos naturais de todos conhecidos.

Fascinante é também a forma como “O olho de Deus” nos remete para duas linhas de história: aquela que conhecemos e que consagra a ascensão e queda (eminentemente devido a factores militares) do Império Romano e aqueloutra que consiste num segredo impossível de digerir e que está umbilicalmente ligado à queda do Império e às próprias origens da Cristandade. Será esse segredo, que o autor vai adiando até às últimas páginas, que a equipa de investigação conduzida por Gray Pierce persegue obstinadamente, materializando assim uma épica aventura ao estilo de Indiana Jones.

Volto ao que disse no início: não estamos, na verdade, perante um Dan Brown disfarçado. Mito menos perante uma réplica de “O Código Da Vinci”. O “Olho de Deus” não remete para um simples mistério histórico rodeado de símbolos fascinantes: ele encerra uma visão diabólica do futuro da humanidade. Do nosso século XXI. Uma espécie de novo Dante do nosso tempo. E isso, obviamente, impulsiona a uma profundíssima reflexão sobre o modo que conduzimos a nossa própria vida.

André Ventura

André Ventura

Escritor

Professor Universitário