Literatura dos Famosos – “O Homem que via passar Comboios”

simenon

Para esta semana, uma obra poderosa, em processo de reedição: “O homem que via passar os comboios”, de George Simenon. Uma obra cujo poder está precisamente na exploração original e seca dos mais profundos anseios e aspirações da alma humana.

De facto, quando um homem comum, com um trabalho comum e com uma história comum (Popinga) decide alterar radicalmente a sua vida e ir em busca desse carpe diem que sempre lhe falhou, começa uma brutal história de emoções, homicídios, paixões, sequestros e divagações profundas que terminam num delicioso e expressivo jogo do rato e do gato entre esse mesmo homem e as autoridades dos vários países por onde vai passando.

Apesar da escrita plástica e sensitiva de George Simenon ser evidentemente de destacar, o que sobressai em “O homem que via passar comboios” é o incrível enredo que, apesar de simples quanto à narrativa, é extraordinariamente complexo quanto às emoções, às sensações e à própria analítica da alma humana que percorre toda a obra.

No fim, resta perguntar-nos, com Popinga, o que é a verdade. Qual a sua natureza e a sua essência. Mais: qual a sua importância no contexto da vida de um homem que, a dada altura, decidiu seguir os seus instintos mais puros e mais selvagens.

Desde a história com Rose e os romances vazios com prostitutas de bairro aos perturbantes jogos de xadrez em lugares quotidianos e fumarentos, tudo na narrativa de Simenon nos transporta para uma análise da vida, um existencialismo complexo e perturbador, uma inexistência de verdade e um relativismos que, apesar de extremados, revelam grande parte da beleza da ‘vida normal’ dos seres humanos. Da banal construção e existência do ser humano.

Talvez por isso, aquando da primeira edição da obra, os jornais caracterizassem “O homem que via passar comboios” como “uma viagem aos mais ocultos recessos da alma humana, naquele que será porventura o mais célebre romance de George Simenon”. Só por isso seria uma obra a não perder de vista neste início de Verão.

 

André Ventura

Jurista/Professor Universitário

andréventura