Literatura dos Famosos – David Leavitt

David Leavitt

Agora que se anuncia, um pouco por toda a Europa, a reedição de obras de David Leavitt, a escolha para esta semana teria de pender para um livro fabuloso, expressão única do fervilhar de emoções, sensações e clímax político dos idos 90: “Enquanto a Inglaterra Dorme”.

Com uma escrita rápida e surpreendentemente plástica – por vezes grosseiramente ofensiva – a obra de Leavitt deixa, no entanto, imensas pistas de reflexão fundamentais para os dias de hoje: a liberdade interior e a paixão dos sentidos, a homossexualidade e as conveniências sociais, a politica e o amor, todos interligados numa espécie de binómios históricos emergentes num contexto muito particular: a Europa dividida e ameaçada dos anos 30, muito concretamente a apaixonante guerra civil espanhola.

É acerca dessa guerra e por causa dessa guerra que os dois heróis de “Enquanto a Inglaterra Drome” se encontram e, para sempre, se separam. Brian e Edward são provenientes de contextos sócio-familiares diferentes mas partilham uma comum paixão ardente e uma necessidade arrepiante de um sentido pleno para uma existência marcada por melodramas pessoais e familiares por vezes sufocantes. A guerra no coração – e nas margens – da Europa abrirá para ambos uma nova etapa, quer na paixão ora envergonhada ora assoberbada que sentem um pelo outro, quer no destino traçado para ambos e que simboliza, no fundo, o destino trágico da Europa dos anos 30 e 40.

David Leavitt tem aqui um mérito incontornável: consegue exprimir ao mais ínfimo detalhe a ardente relação entre Brian e Edward ao mesmo tempo que explora o verdadeiro drama humano da guerra em Espanha e os contra-sensos de uma sociedade inglesa purista onde, ao mesmo tempo, se luta pela sobrevivência e pelo British way of life.

Sobrevivência que é, assim, uma palavra-chave deste romance que o Publishers Weekly definiu como “um melodrama no melhor sentido da palavra, subtil e maravilhosamente escrito”. Num ápice, com a decisão de Edward de se voluntariar para ir combater numa guerra longínqua na Península Ibérica, o centro gravitacional da história altera-se profundamente, assim como a percepção do próprio leitor: a paixão, os ímpetos carnais meticulosamente descritos, a suavidade das expressões quotidianas, os ventos norte de Londres, dão lugar a uma impiedosa luta pela sobrevivência e pelas convicções de todos os envolvidos. De facto, Brian não estava tão confiante quanto Edwards da pureza e da bondade dos ideais marxistas que acabaram por impelir o seu amante para um conflito ao qual apenas pertencia numa lógica difusa de luta internacional do proletariado.

A maravilha deste “Enquanto a Inglaterra Dorme” é, no entanto, essa mesma: dois homens, dois amantes, duas vidas simples em furiosa erupção num contexto histórico que ainda hoje nos deixa a todos intrigados. O colectivo e o individual. O marxismo e a liberdade. A homossexualidade e os fascismos emergentes. E um Edward Phelan, um simples trabalhador do metro de Londres, a tentar vencer, e convencer-se, no núcleo deste vulcão que quer, por todas as razões, erradicá-lo da face da terra.

Um melodrama sim, embora envolto num verdadeiro hino à vontade e à paixão desenfreada.

André Ventura

Professor Universitário

Escritor

andréventura