Um livro para os felizes – Yasmina Reza

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Para esta semana, recomendo um livro e uma autora com que só recentemente tive o privilégio de contactar: ‘Felizes os felizes’ de Yasmina Reza. Um livro absolutamente fascinante, de uma autora tão misteriosa quanto charmosa. Um charme que, naturalmente, contagia a sua literatura.

À partida, uma obra sobre temas corriqueiros: as relações humanas, os casais, na sua atónita simplicidade quotidiana. Depois, uma leitura mais atenta, e a surpresa: a profundidade do conhecimento dos dois géneros, homem e mulher, catapultados num discurso ora cómico ora trágico que retrata o mais fielmente possível a realidade da vida humana. Vida essa que Yasmina parece conhecer em profundidade.

Há uma particularidade, no entanto, que merece ser destacada: a autora desenvolve o livro da mesma forma em que trabalha as suas já muito premiadas obras teatrais, tornando os capítulos tão separados como possíveis. Em rigor, ao leitor parecerá que estamos a lidar com contos autónomos até ao estabilizar definitivo da narrativa, mais ou menos a meio da obra. No entanto, essa separação não prejudica a leitura, criando barreiras, antes permite realçar um elemento comum: a estética das emoções vem ao de cima permanentemente, permitindo ao leitor reconhecer os heróis da narrativa como se fossem momentos e tempos da sua própria vida. Uma espécie de interconexão espiritual entre autor e leitores.

Depois, claro, porque a vida é, em si mesma, de uma complexidade imensa, Yasmina transporta o leitor para as questões fundamentais da felicidade e da religião, denotando o peso do judaísmo que lhe chegou por via paterna. O resultado final é surpreendente, um elo de ligação entre as emoções, a fé e o quotidiano que nos deixa, no final, a interrogação sobre se seremos felizes ou não.

Mesmo a cair o pano, Yasmina volta a brindar-nos com um conjunto de emoções agressivas, quase assassinas.  É como se, depois de analisar o banal quotidiano, a aridez do dia a dia de homens e mulheres em vida comum, a autora deixasse um recado trágico, uma conclusão sobre a desilusão imensa do natural e, talvez, do sobrenatural: “Os objectos acumulam-se e deixam de servir para o que quer que seja. Como nós. (…) Tudo o que está sob os nossos olhos já é passado. Não estou triste. As coisas são feitas para desaparecer. Ir-me-ei sem história. Não encontrarão caixão nem ossos. Tudo continuará como sempre. Tudo partirá alegremente pela água” (p. 55 de “Felizes os felizes”).

André Ventura

Professor Universitário

Escritor

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