Um livro para Gentlemen

Intemperie

Para esta semana que agora se inicia recomenda-se um livro para gentlemen e de um verdadeiro gentleman. Um manifesto de cultura no sentido próprio da palavra. Um livro cujo foco se situa nada mais, nada menos, do que na dignidade da pessoa humana: ‘Intempérie’, de Jesus Carrasco.

Numa obra fácil de ler e veloz na transmissão de conceitos nem sempre fáceis de expor ao público, Carrasco explora os medos e as ansiedades mais recônditas e belas do ser humano, sobretudo através de duas personagens que se mesclam casualmente: um menino fugido de casa e um pastor sem outra cultura que não a cultura da experiência e da vida, empenhado (e preocupado) numa luta sem tréguas contra a natureza seca e árida da região.

Engane-se, no entanto, o leitor se pensa que ‘Intempérie’ o levará ao clássico cliché da aprendizagem com a vida e com a experiência: há muito pouco de Hemingway em Jesus Carrasco. Pelo contrário, as personagens, as histórias e as memórias são intencionalmente negligenciadas para que o leitor se concentre nos factos e na narrativa. E, claro, na força da natureza, da natureza dura e árida de uma Espanha central afectada pela seca e pela violência. A influência, a existir, é claramente a do chileno Hernan Rivera Letelier.

É talvez a natureza – primeiro a longa viagem que o menino fugido é obrigado a fazer para se afastar definitivamente do lar paterno e depois a aridez dos terrenos que vai conhecendo com o velho pastor – que canta a vitória do protagonismo neste primeiro romance de Jesus Carrasco: é nela que o leitor se prende porque é nela que os factos, a violência e as emoções, se prendem irremediavelmente.

Mas ‘Intempérie’ não é apenas a narração e o canto da natureza, da sua força e da violência com que brinda a realidade humana: no decorrer de uma obra que poderia ser considerada lírica, Carrasco quer que descubramos uma realidade incontornável, a dignidade da pessoa humana. Talvez uma óptima imagem de ‘Intempérie’ fosse esta mesma: para além das tempestades e dos conflitos de civilização, para além dos ataques recentes da natureza e das explosões de morte e destruição a que temos assistido um pouco por todo o globo, para além da erosão da moral e dos valores, permanece ou deveria permanecer inalterável e inatacável a dignidade da pessoa humana. Mesmo, claro, no meio da ‘Intempérie’.

André Ventura

Professor Universitário

Escritor

andréventura