A Literatura dos Famosos

nora origem

O Gentleman’s Journal começa uma parceria com André Ventura, escritor e professor universitário, para uma crítica literária semanal. Como o suporte de um bom gentleman, a cultura passa por hábitos de leitura que permitem abrir horizontes e cultivar mentes.

Para iniciar este espaço de crítica e análise literária só podia recomendar aos nossos leitores uma obra, que, pode dizer-se, marca o momento literário: o “Sabor do Momento” de Nora Roberts.

Marca o momento literário em vários sentidos, todos eles importantes: porque é um hino à força da vontade e do amor e porque, nestes tempos conturbados em vivem imersas as sociedades ocidentais, vem convocar implicitamente a ideia clássica de que o trabalho e a persistência são capazes de resultados incríveis..quase inimagináveis. De facto, quando Laurel McBane sente que a paixão platónica que tem por Delaney, um advogado inalcançável, afinal se pode tornar realidade, um misto sentimento de impotência e estupefação toma conta do seu espirito. Algo porque todos nós, de forma mais ou menos intensa, já passámos.

Quando finalmente se apercebe que também Delaney hesita firmemente em dar largas à paixão, inicialmente tímida, que começa a sentir, Laurel é obrigada a viajar ao núcleo mais profundo da sua própria alma para perceber que passos deve dar e em que direcção. Os caminhos são múltiplos, confusos e, no final, possivelmente dolorosos.

O resultado final dessa viagem é este fabuloso terceiro livro do Quarteto das Noivas, uma impressionante estrutura de combinação entre sabores e sentimentos que se converte num monumento à importância do amor e também da amizade. E, claro, da culinária, que permanence como uma sombra permanente ao longo de toda a obra. Um livro que nos convence, definitivamente, que o nosso coração sabe, no fundo, a direcção certa a percorrer, ainda que muitas vezes se acanhe de o expressar.

O “Sabor do Momento” condensa ainda uma importante lição, talvez a mais importante que Nora Roberts quer transmitir: o medo de construir relações, o medo de dizer “amo-te”, o medo de arriscar cair nos braços que o nosso coração todavia nos aponta, todos esses medos não passam de uma minúscula recordação quando finalmente nos sentimos ancorados na alma gémea. Uma vitória reconfortante essa!

Megalomania amorosa? E o que é a história da arte no Ocidente senão um painel de histórias de amor miraculosas e dramática?

André Ventura

Professor Universitário

Escritor